sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A Explosão

Em quase meio século de vida, Seu Zé Alfredo nunca tinha visto tamanha sujeira. Acostumado a sentar na porta de casa, conversar com os vizinhos e olhar aquelas menininhas atrevidas - como costumava chamar Dona Zefa, sua mulher - , o pobre coroa estava atordoado.

Na casa da frente, uma grande explosão havia acordado toda a vizinhança. Estilhaços de vidros, livros, fotografias, películas, vinis... Tudo se misturava à poeira e nuvem de fumaça que se formava pelos arredores. O único sobrevivente da catástrofe havia sido o velho narguilé florido - coisa de bicha, pensava Seu Zé. "Macho que é macho entoca o fumo preto em papel velho".

Enquanto a polícia sitiava o lugar, o cinquentão foi por trás e entrou na casa. Lembrou que tinha passado grande parte da juventude ali, fumando jasco e ouvindo seus vinis, agora chamados de discos sem uso, velharia.

Recordou também dos amores de nomes infinitos, de psicóticas que liam seus contos estampados em pasquins e lhe entupiam de cartas sem sentido... Lembrou também do gás. O cheiro de gás que impestava a casa toda e que, pelo visto, não a abandonaria, a não ser por demolição. Fez um esforço tremendo para lembrar dos moradores, seus vizinhos. Foi então que atentou... Sim, era ele. Depois da auto-imolação, havia retornado. Por onde teria andado o tal do... - como era mesmo o nome? -, que tinha ido embora sem maiores justificativas? O cara que misturava cheiro de café com gás... É, só pode ser o tal do Wildoval.

Merda.

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