segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Três Badaladas

Olhos fixos na parede amarelada cheia de rachaduras e semi-destruída pela infiltração que corria por todo o organismo da casa. O relógio apontava três horas da tarde. As duas escuras bolas de gude permaneciam cravadas, sem vibrações ou quaisquer movimentos leves. No canto lateral direito, a torneira pingava compassadamente. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete... Mil. Alguns passos adiante, um cheiro característico exalava da cozinha: milho cozido. Fervendo, a água borbulhava no mesmo ritmo, sem alteração. Duas janelas se mantinham abertas, imperturbáveis. Três horas. Ao virar o pescoço, a cama, o ventilador quebrado, a escrivaninha coberta por poeira e feixes de luz invadindo o espaço há muito conquistado e abandonado.

Na sala, o senhor do tempo mantinha-se seguindo nas mesmas batidas enquanto gotas despencavam de roupas no tanque. Brancas, azuis, vermelhas, amarelas, verdes. As cores pareciam brincar de igualar, de transformarem-se em uma só: uma grande bacia preta, de cheiro forte e aparência de depósito de terra com misturas orgânicas em decomposição. Perto da parede, ponteiros se abraçavam sem sair do lugar, chamando a atenção dos dois espelhos. Sempre na mesma posição, respirando o ar abafado e quente.

Lá fora, um fusca passa arrastando fumaça em frequências similares. O odor negro se espalha em mil partículas simétricas, lenta e indiscriminadamente. O vendedor de vassouras continua atravessando a esquina com gritos que mais parecem um enorme choro sufocado: “Quem quer comprar vassoura? Óia a vassoura”. Palha que limpa a sujeira, esconde impurezas e traz ordem aos mesmos lugares.

Três horas da tarde. Cílios que não cerram; coração palpitando devagar, momentos que se perdem no assoalho, no chão, na mesa, na pia. E assim os dois olhos negros se perdiam na parede ao observar os ponteiros do grande relógio de madeira colonial para, depois, voltar à paixão para o espelho do centro, cercado por uma fina camada de material dourado, já gasto e raspado pelas três horas vespertinas. Mirando o reflexo, uma imagem surge para mostrar feições já conhecidas. Olhos da cor de um carvão em chamas saltavam de uma pele borrada, apagada e redesenhada milhares de vezes. Cabelo seco que disputava o suor exalante dos poros. A mesma sequência, o mesmo ritmo, as mesmas gotas.

Os olhos negros fitavam as chamas do espelho e agradeciam pela companhia. O café seria servido em algumas horas. “- Você vai gostar. O pó, a quantidade de água, a dosagem do açúcar... Tudo do seu gosto”. O espelho parecia balbuciar algumas palavras de afeto (educação, talvez), e voltava a fixar o rosto, sem nada dizer, sem nada cobrar. Os ponteiros cambaleantes pararam. Ainda não são quatro e lá se foram as duas horas anteriores. Cresce, cresce, cresce para continuar na posição, os carvões não reclamavam jamais. Prosseguiam o rumo sem sequer mudar a escala. “– Isso é amor. Fiel, incrustado, verdadeiro, cotidiano”.

Sons homogêneos. A hélice roda tal qual a quantidade de pingos da torneira. Tudo na fila, na obediência, sem dilemas. A paixão entre os olhos negros estremecia em palpitações idênticas, já que “fomos feitos um para o outro”. No cabide, peças de roupa íntima balançavam à procura da orquestra ideal, onde todos os instrumentos estariam em perfeita sintonia. Sem timbres, sem multiplicidade. “- Só nós dois”. As mãos apagadas delineavam o corpo, enquanto pedaços de cinzas tocavam a carne centímetro por centímetro, sem nunca ultrapassar. Três sinos. “Vamos lá, me ame agora”.

Duro como uma pedra em estado bruto, eles se uniram em um só. Idênticos. Os corpos se encontraram, sem pausas, e se amaram. Na parede, o grande relógio marcava três horas. No chão da sala, dois olhos negros estavam escondidos entre cabelos secos, dispostos em um grande espelho central. Três horas da tarde.

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